Jamais vermelho, já mais vermelho

ou A digestão da palavra

 

Marina Ferraz Rocha

 

Ela ainda não sabia o motivo pelo qual se sentara naquele banco; daqui a pouco escureceria e ela deveria ir para casa. Deveria mesmo sem saber porque deveria. Tirou os pés do chão e desligou o celular, sumiu.

O movimento, não mais tão intenso, das pessoas voltando para suas casas a distraiu por minutos. Não exatamente o movimento, mas as razões que as faziam voltar; provavelmente, muitas delas nem sequer pensavam sobre isso, a maioria jamais questionaria seu cotidiano. Ela sorriu, sentindo o gosto agridoce de ter consciência de viver.

Era como se estivesse hipnotizada pelos passos comuns que compunham a dança da rotina. Será que os sapatos daquelas pessoas eram como os sapatinhos vermelhos encantados? Aqueles que, depois de calçados, jamais iriam parar de dançar os mesmo passos?

Jamais… Ela saboreou a palavra mentalmente; digerida ela pesou em algum lugar que não o estômago. O rosto permaneceu sereno, ninguém repararia que a menina do banco tinha uma profunda indigestão semântica; sempre fora boa em disfarçar terremotos.

A palavra se contorcia, exibindo a magnitude de seu significado como se fosse uma ginasta com sua fita vermelha. E a menina esperava com paciência que ela encontrasse um lugar dentro de si e se aquietasse, mas a ginasta era amadora e, por isso, gostava de demonstrar suas habilidades, manobrando com destreza o significado vermelho sangue.

O Sol se escondia atrás dos prédios, levando com ele seus raios. Raios estes que vez ou outra, enquanto a menina caminhava, cismavam em abraçar seus olhos. Ah, como ela gostava de sentir o Sol sempre em seus olhos, iluminando seu caminho com a luz de um eclipse singular. Mas, dessa vez, ele ia embora e cabia a ela mesma clarear seu caminho.

Os prédios abriam seus olhos amarelos e acusadores, enquanto ela espiava a palavra. Estática. Ambas. Parecia seguro. Parecia? Alguma vez pareceu seguro?

Jamais…

Lá estava ela novamente. Fita vermelha voando leve, circundando convicções, emoldurando incertezas. A fita vermelha de cabelo lançada ao mar.

A noite chegou sorrateira e ela quase não percebera, não fosse o barulho escuro que essa dama fazia, seu vestido preto arrastando pontos brilhosos.

A menina se levantou, era hora de ir. (Por quê?) A fita vermelha rodando, rolando, rodopiando. Seu rosto tranquilo era acariciado pelo ar quente da noite, sua grande mãe. Levava o jamais consigo, jamais inquieto e atleta, sabendo que jamais conseguiria se livrar dele, mas, a cada passo, já mais acostumada.

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Oscar Pistorius

Waine Vieira Júnior  

Homem ou máquina?
Homem e máquina?
Homem em máquina?
Homem: a máquina?
Homem maquina.
Vai longe, Pistorius,
homem ex-machina.

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Arquivado em Território Livre

Sem palavras…

O homem é um ser de palavra. Nem só. Há várias formas de expressão que ultrapassam o verbo. A música, a pintura, a arquitetura, a dança assim como os gestos, as expressões, a voz, o olhar, o corpo, etc. O mundo acadêmico privilegia uma única forma de pensar: através de ideias claras e distintas. Equaciona-se o ser ao raciocinar, excluindo não somente o sentir assim como o sujeito da enunciação, como se este fosse um anátema ao rigor dito científico. Não é isso o que queremos aqui. Este espaço destina-se à produção não acadêmica, ou seja, aquilo que é varrido para debaixo do tapete. Postula-se aqui o que se denomina, precariamente, de pensamento poético, ou seja, uma escrita que não se funde exclusivamente na palavra enquanto moldada pela organização verbal estruturada no rigor de um pensar analítico, descritivo ou interpretativo. O que se quer? O que ainda não há, mas pode haver: tudo aquilo que fuja ao modelo convencional fundado na concepção linear, platônico-aristotélica, de desenvolvimento retilíneo do pensar separado do sentir. Como “pensar” o mundo? Apenas através do desenvolvimento encadeado das ideias organizadas em uma sequência de introdução, desenvolvimento e conclusão? Isto não nos basta. Queremos mais, ir além do permitido pela palavra. Que esta nos possibilite a expressão do ainda não expresso, como exercício pleno da conquista da liberdade inerente ao homem desencarcerado das correntes da caverna. Postula-se aqui um modo diverso ao entendimento praticado na Universidade: não analítico, não linear, não determinista-causal. Portanto, mãos à obra. Desajuizados de todo  CANTO, uni-vos!

jose carlos pinheiro prioste (Professor de Teoria da Literatura da UERJ)

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